Crônicas das Copas do Mundo: videogames e nostalgia

Autoria e Edição: Júnior Malacarne

Imagens: Internet ou geradas por IA


Olá, pessoal! E aí, como está esse coração verde-amarelo sofredor neste frio de meados de 2026? Um frio de 13ºC de uma madrugada de domingo em plena Copa do Mundo me inspirou a buscar memórias um pouco mais aconchegantes e afáveis nessa mente nostálgica aqui que já viu glórias que há muito não se vê nos gramados, assim como eu imagino que meu caro leitor também tem as suas bem guardadas no coração.

Muitos torcedores brasileiros chegaram a desistir da camisa amarela e passaram a torcer para los hermanos argentinos, ou ainda para Alemanha, França, Espanha ou alguma outra seleção que não traga tantas amarguras. Afinal, já é um jejum de 24 anos sem um título mundial, para a seleção que tem mais títulos na história (e vê enquanto isso suas rivais encostarem na sua posição privilegiada). Muitos lembram (ou tomam conhecimento) que 24 anos foi o mesmo período de jejum entre o tri e o tetra, passando pela gloriosa seleção da década de 80 que não conquistou a taça e, assim, insistem em torcer fielmente para a seleção canarinho da nossa pátria, na esperança de cravar a sexta estrela na camisa.


Não sei de qual lado você está, e talvez os ânimos ainda variem bastante nesse espectro mas, verdade seja dita, nossa seleção não encanta tanto atualmente quanto em outros tempos. Eu mesmo tenho que confessar que não venho acompanhando tanto sua trajetória recente, quanto acompanhava na infância e adolescência e, como muitos, tenho recorrido às lembranças nostálgicas que tanto nos reconfortam o coração de torcedor.





O início de tudo em uma década dourada



Cresci na década de 90. “Anos dourados”, diriam alguns. Época “sem-lei”, diriam outros. Mas, a bem da verdade, considerando o que certo escritor da família disse uma vez que “toda infância é a melhor infância do mundo”, aquela mente encantada de criança pode vivenciar circunstâncias muito aprazíveis culturalmente, a despeito de outros aspectos questionáveis que hoje a mente adulta pode analisar.


Lembro-me daquela enxurrada de músicas de qualidade da década de 80 que ainda tocavam quentinhas nas rádios ou toca-fitas das casas e dos carros; de quando praticamente tudo ao nosso alcance ainda era analógico e proporcionava experiências sensoriais incríveis (TV, revistas, livros, almanaques, dispositivos independentes, brinquedos, cartuchos de videogame…); lembro-me também dos brindes de kinder-ovo aos montes nas caixas de sapato e HQs começando a chegar com frequência no meu quarto… 


Estávamos na primeira metade da década de 90 e eu tenho flashes bem vivos na memória da primeira Copa do Mundo que eu lembro de ter acompanhado: a Copa de 94, nos EUA, quando eu tinha apenas 6 anos de idade (quase 7). Sim, os esportes traziam ainda a medalha de ouro para o vôlei de Tande e Cia em Barcelona no ano de 1992, e os encantos das pistas de Fórmula 1 com nosso saudoso e inesquecível Ayrton Senna… Mas memórias afetivas fortes foram construídas naqueles dias quando comecei a assistir os jogos com o meu pai e ele me ensinou a marcar os placares naquelas nostálgicas tabelinhas das copas: meu Deus, como algo tão simples pode se tornar tão afável? 

Eu tenho algumas lembranças de um jogo da Alemanha em que eu dizia que o goleiro tinha um uniforme que lembrava o bombom Chokito da Nestlé e também de eu querer anotar o gol na tabela logo que a seleção marcou, e meu pai me ensinando então para eu esperar o jogo acabar para anotar o resultado correto (rsrs).

Lembro também de naqueles dias eu ganhar um kit de futebol de botão de presente. Não sei se foi antes da Copa, no hype da expectativa que todos estavam, ou se foi depois da Copa, no hype das comemorações do tetra. Não era um kit profissional, mas também não era daqueles mais simples de clubes do campeonato brasileiro que se achavam aos montes nos camelôs. Era um kit de seleções com 7 equipes: Brasil (ainda com um símbolo de tricampeão), Itália, Alemanha (mais duas “tri”, que ano!), Inglaterra, Espanha, Argentina e, se eu não me engano, Estados Unidos. Eu brinquei demais com esses botões por muito tempo naquele ano e depois, e até pouco tempo atrás eu sei que ainda tinha um pouco deles guardado.





A camisa da seleção, os enfeites verde-amarelos pelas ruas da nossa pequena cidade, as tabelas de papel, o mascote, a final dura contra a Itália, os pênaltis, e a vitória. A quarta estrela marcou um coração infante junto com milhões de outros brasileiros. Naquele ano os videogames ainda não tinham chegado com peso em minha casa (apesar do Atari 2600 já figurar na nossa sala de estar), mas o coração aquecido de torcedor daquela época não deixou passar batido os ISS e Campeonato Brasileiro da vida nos anos seguintes, quando o SNES se estabeleceu como entretenimento virtual oficial.


A virada da década na adolescência


Todos nós brasileiros estávamos em um hype muito grande para a Copa de 98 na França. Tudo, em todo lugar, era sobre a Seleção. Agora sim, com meus 10/11 anos, pude acompanhar bem mais “de perto” e me envolver ainda mais. Minha mãe assinava a Revista Veja e eu lembro que a cada semana as expectativas para a Copa recebiam um tratamento todo especial nas edições e eu, mesmo criança, acompanhava tudo: teve até uma grande edição toda especial bem completa, que cobria todas as seleções participantes, com tabela, estatísticas e tudo mais. Ah, falando nisso, as tabelas (lembra daquela coisa simples que eu disse?) eram nossas companheiras inseparáveis: eu tinha pelo menos uma meia dúzia diferente delas nessa época.

Bem, a despeito de toda a nossa animação, e da qualidade e desempenho altos da seleção durante o torneio, tivemos que engolir aquela final amarga que, para os corações tristes ou indignados (ou as duas coisas!) mais parecia ter sido vendida (ops, não vamos tocar mais no assunto…). O penta teve que ser adiado por conta de Zidane e Cia. (ou foi por conta de Ronaldo, Roberto Carlos e Cia que pareciam outros jogadores naquela final? Tudo bem, a pressão era grande…). 

Depois daquele triste domingo, voltamos como “o cão arrependido com suas orelhas tão fartas, seu osso roído e seu rabo entre as patas”. Vida que segue e vamos guardar as lembranças… No videogame eu lembro que naquele ano eu já começava a ter contato com o PS1 e começava a me tornar leitor assíduo da revista Ação Games. Seja no “play um” dos meus amigos ou nas revistas (com PS1 e N64), eu já me admirava com os jogos de futebol 3D, o próprio jogo da Copa que recebia muitas matérias, e outros. Os fliperamas chegaram com mais força em minha pequena cidade do interior mais ou menos nessa época também. Lembro de um “Super Sidekicks” lá no cantinho da banquinha, mas não posso negar que as máquinas que mais nos encantavam eram as de KOF (96, 97 e 98), Street Fighter Zero 2 e o superlativo X-Men vs Street Fighter - KOF 97 foi a que mais marcou esse que vos escreve. O SNES, é claro, seguia firme na sala de casa e assim ainda seguiria por um bom tempo.





Mas o tempo passou, a adolescência avançou, o PC chegou e ganhou certo espaço com Age of Empires, Sim City, Rally Championship, Quake 2 e inúmeros outros jogos demonstração comprados nas revistas da banquinha; o SNES acabou perdendo um pouco o espaço, PS1 estava no auge nas jogatinas das casas dos amigos (nunca tive um!) e o ano de 2002 chegou: mais um torneio de Copa do Mundo, agora do outro lado do mundo, na Coréia do Sul e Japão - jogos de madrugada, expectativas baixas… 

Mas o Brasil (ainda…) era o país do futebol e, mesmo que com bem menos aparatos e bugigangas de torcedor que na época da Copa de 98, lembro de nos engajarmos na torcida. Ah, as tabelinhas não podiam faltar - minha meia dúzia delas estava lá: conseguíamos na escola, no entregador de gás, no supermercado, imprimíamos no PC, etc. Agora com meus 14/15 anos - que foram marcantes em muitos outros sentidos - já também na igreja e no caminho do Senhor, me animei com meus colegas para acompanhar a Copa, ainda que pelos noticiários, por não conseguir acompanhar muitos dos jogos por conta do fuso horário. Sim, eu cheguei a marcar com um amigo na casa dele para ressuscitar e jogar aquele meu antigo jogo de botões de seleções, marcamos jogatinas de futebol no PS1 na casa de outro amigo para simular os jogos da Copa - inclusive chegamos a organizar uma “copinha” entre uns quatro amigos com alguma daquelas minha tabelinhas que estavam sobrando, mas lembro que um ou outro colega acabou saindo e o torneio não chegou ao fim.

E agora sim: lembro daquele domingo em que o culto da igreja foi remarcado para mais cedo de manhã (a igreja ficava na avenida, posicionada à mercê de comemorações bem barulhentas na ocasião rsrs), e pudemos assistir o jogo com emoção, em família, do mesmo jeito que fizemos quatro anos antes. E que emoção! O coração de torcedor desconfiado batia forte - que na verdade foi “conquistado” ao longo do torneio - e pode ver então Ronaldo e Cia se redimirem, trazerem a quinta estrela no peito e marcar toda uma geração com um futebol cheio de qualidade e garra que, opinião minha, não se viu mais pelo menos nos 24 anos seguintes.

Em 2006, com a Copa da Alemanha, nós tentamos. Tínhamos ainda muitos talentos na seleção, mas lembro daquela fatídica tarde em que, na nossa casa, pausamos um dia de mudança de residência para ver o Brasil perder para a França. Dali para cá foram muitas decepções, não só com as perdas que podem acontecer com qualquer grande seleção, mas com a falta do futebol genuinamente brasileiro e tetra/pentacampeão que tanto nos encantava. Ou será que essas comparações não passam de mania de nostálgico? Acho que não. É mais provável que o brilho daquela época tenha criado essas verdadeiras raízes afetivas.

Eu com os meus 18/19 anos em 2006, já trabalhando, relativamente longe dos colegas de escola, morando em outra cidade, com o SNES na caixa e o PC defasado para ter bons jogos (e só fui conhecer melhor os emuladores a partir do ano seguinte), não tenho muitas lembranças de games daquele ano. Na verdade, a partir dali eu ficaria muitos anos sem acompanhar a indústria de games de perto. Porém, a nostalgia deste coração gamer não me deixaria tão fácil e por longos anos seguintes, consegui ir voltando aos poucos a jogar os jogos, agora então chamados “retrô” - e me encantando do mesmo jeito como na infância rsrs - mas claro, com o digital roubando bastante a cena das experiências sensoriais que tínhamos antes, as quais é difícil de comparar…


O que um coração nostálgico tem a revelar?


Ah meus amigos, como é emocionante, gratificante e prazeroso contar tudo isso! Trazer de volta as lembranças, desenhar na memória as cenas e sensações, é algo muito afável e agradável. Tanto o futebol quanto o videogame marcaram muito os nossos corações na infância e trazem muitas emoções e muita nostalgia hoje em dia. Realmente, parece que aquele coração infantil está de volta aqui escrevendo. Mas é claro que é um adulto, quase quarentão que o está fazendo. As emoções tendem então a variar quando lidamos com a realidade do tempo… 

Bem… vocês perceberam que falamos muito de coração aqui neste texto. O coração nostálgico pode até se enganar ou querer enganar o tempo e, até certo ponto, isso pode até ser divertido. Mas para muito além dessa relação temporal, a Bíblia nos diz em Jeremias 17.9 que o coração do homem é enganoso. Nossos sentimentos, ideias, razões e emoções parecem nos guiar para um caminho certo, mas o coração que se separou de Deus lá no início da história, sempre pende para longe dele, para longe da fonte da vida… e assim nos engana. Separado de Deus, o coração humano sempre tenta colocar algo no centro, lugar que deveria ser do Criador. João Calvino chegou a afirmar que “o coração humano é uma fábrica de ídolos”...

Ele não está errado. Mas será que tudo o que fazemos de coração neste mundo precisa tomar o lugar de Deus? Um dia desses vi uma mensagem compartilhada por Herley Rocha Souza que ensinava muitas verdades sobre esse assunto, baseando-se no futebol. O futebol que nos encanta, nos mostra que “quando alguém usa um talento com excelência, há beleza sendo criada diante dos nossos olhos, e toda beleza verdadeira aponta para além dela mesma. Deus é o Grande Artista que criou o mundo cheio de forma, ritmo, força, inteligência e beleza. E quando um ser humano cria, joga, compõe, constrói, pinta, desenha, escreve, cozinha ou trabalha bem, ele está refletindo, ainda que de modo limitado, algo do criador.” O talento organiza as dádivas recebidas de Deus e essa beleza resultante atrai nossos afetos.

Meu desejo é que a beleza do futebol, do videogame, das artes ou bons trabalhos em geral, possam atrair o seu coração para Deus. Se existe um espaço vazio nesse coração que só Deus pode ocupar e nenhum outro ídolo o pode fazer, a graça de Cristo pode consertar isso, e a sua fé pode recebê-lo em seu coração de novo.





A beleza do futebol e dos videogames pode ser apreciada com gratidão ao Deus que criou tudo isso. E se você leu até aqui, que Deus o abençoe grandemente! Acompanhe a equipe Muito Além dos Videogames e conte conosco para caminhar junto. Bola pra frente Brasil!


Comentários (0)


Deixe um comentário